Folclore: a memória de um povo que precisa continuar viva
Muito além das lendas, o folclore representa os costumes, os saberes, as tradições e a identidade de uma sociedade
Sabemos que uma sociedade é formada por um conjunto de indivíduos que compartilham um mesmo espaço e estabelecem princípios, regras e leis para organizar a convivência e manter determinado equilíbrio social. Ao longo de sua existência, uma sociedade também evolui por meio de descobertas científicas, avanços tecnológicos e manifestações culturais que ajudam a construir sua identidade.
A palavra sociedade tem origem no latim socius, termo relacionado a companheiro, associado ou aliado. Em uma sociedade, as pessoas compartilham leis, costumes, valores, culturas e regras de convivência, estabelecendo relações que acontecem de maneira contínua.
Entre os diversos elementos que contribuem para a evolução de um grupo de indivíduos, a cultura ocupa um papel fundamental. É por meio dela que diferentes povos expressam seus valores, conhecimentos, crenças, costumes e formas de compreender o mundo. A cultura possui características próprias e influencia diretamente a identidade social de uma comunidade.
É justamente dentro desse universo que encontramos um elemento essencial para a construção cultural de uma sociedade, de um país ou de uma região: o folclore.
Afinal, o que é folclore?
A palavra folclore tem origem na língua inglesa, formada pela união de folk, que significa “povo”, e lore, relacionada a “saber”, “conhecimento” ou “saberes tradicionais”. Dessa forma, o termo está diretamente ligado ao conjunto de conhecimentos, costumes e manifestações que pertencem a um povo e são transmitidos, principalmente, entre diferentes gerações.
O folclore não está restrito às famosas lendas de personagens como Saci-Pererê, Curupira, Iara ou Boto. Ele é muito mais amplo. Envolve danças, músicas, festas populares, brincadeiras, culinária, artesanato, vestimentas, crenças, cantigas, provérbios, conhecimentos tradicionais e diversas outras formas de expressão cultural.
O Brasil é um dos países que apresentam uma enorme diversidade cultural. Sua grande extensão territorial e sua formação histórica contribuíram para o surgimento de diferentes manifestações culturais espalhadas pelas cinco regiões brasileiras.
O folclore nas cinco regiões do Brasil
Cada região brasileira possui características próprias e manifestações que ajudam a contar a história de seus povos.
No Norte, a forte presença da cultura amazônica pode ser percebida nas lendas, festas, danças, músicas, culinária e conhecimentos tradicionais relacionados à floresta e aos rios. O Carimbó, as manifestações do Festival de Parintins, as festas religiosas e as inúmeras lendas amazônicas são exemplos da riqueza cultural da região.
No Nordeste, o folclore apresenta uma enorme variedade de manifestações. O Bumba Meu Boi, o frevo, o maracatu, as festas juninas, a literatura de cordel, as cantigas e diversas tradições populares demonstram a força cultural da região.
No Centro-Oeste, as manifestações culturais também carregam influências indígenas, sertanejas e de diferentes grupos que participaram da formação histórica da região. Festas populares, danças, músicas, culinária e tradições religiosas fazem parte desse mosaico cultural.
No Sudeste, encontramos manifestações como as festas juninas, as Folias de Reis, o Congado, o samba e diversas outras tradições populares que foram construídas ao longo da história e incorporadas ao cotidiano das comunidades.
Já no Sul, as tradições carregam influências de diferentes povos que participaram da formação da região. Danças, músicas, festas, culinária, vestimentas e costumes tradicionais, como aqueles relacionados à cultura gaúcha e às comunidades de origem europeia e açoriana, fazem parte desse mosaico cultural.
Apesar das diferenças existentes entre as regiões, todas elas possuem algo em comum: suas manifestações culturais ajudam a contar a história de seus povos.
22 de agosto: Dia do Folclore
No Brasil, o Dia do Folclore é celebrado em 22 de agosto. A data representa uma oportunidade para refletirmos sobre a importância dos costumes, conhecimentos e manifestações populares que fazem parte da identidade cultural brasileira.
Nas escolas públicas e particulares, a data costuma ser lembrada por meio de projetos, pesquisas, apresentações, exposições, danças, músicas, contação de histórias e outras atividades pedagógicas.
Mais do que simplesmente apresentar personagens de lendas ou realizar atividades comemorativas, trabalhar o folclore dentro do ambiente escolar significa proporcionar aos estudantes a oportunidade de conhecer a cultura de seu próprio país, compreender suas origens e reconhecer a diversidade existente entre os diferentes povos e regiões.
A escola, nesse sentido, possui um papel fundamental na preservação e transmissão desses conhecimentos.
Memória: quando o folclore também era celebrado nas escolas
A história da educação amapaense também guarda exemplos de projetos que utilizaram o folclore como ferramenta de aprendizagem, integração e valorização da cultura brasileira.
Duas dessas experiências fazem parte da memória de instituições que tiveram participação importante na formação de estudantes e professores no estado: a Escola Estadual José do Patrocínio e o antigo Instituto de Educação do Amapá (IETA).
Projeto Folclórico Bacaba: uma tradição da Escola José do Patrocínio
Até o ano de 2004, a Escola Estadual José do Patrocínio manteve em seu calendário anual de atividades pedagógicas o “Projeto Folclórico Bacaba”.
Durante o mês de agosto, o projeto envolvia estudantes do Ensino Fundamental, do curso de Magistério — período em que a escola ainda oferecia essa formação — e do Ensino Médio.
Por meio de ensaios, pesquisas e da construção de materiais pedagógicos, os estudantes se preparavam para a culminância do projeto, realizada em uma grande festa cultural aberta à comunidade local, fortalecendo a integração entre a escola e o público do entorno.
Durante a programação, os alunos apresentavam diversas manifestações culturais relacionadas às cinco regiões brasileiras, incluindo danças típicas, lendas, culinária, artesanato e outros elementos do folclore nacional.
O Projeto Folclore Bacaba também fazia parte do processo de avaliação dos estudantes. A participação nas diferentes etapas e atividades desenvolvidas ao longo do projeto era utilizada como instrumento de avaliação do terceiro bimestre para os alunos participantes.
A programação acontecia durante a Semana do Folclore, em um único dia, definido previamente pela coordenação da escola.
A festa também tinha um caráter de integração e colaboração entre os estudantes. Durante o evento, eram comercializados comidas, iguarias e bebidas pelas turmas dos formandos, com o objetivo de arrecadar recursos financeiros para suas respectivas formaturas.
Dessa forma, durante anos, o Projeto Folclore Bacaba transformou a escola em um espaço de pesquisa, aprendizagem, manifestação cultural e convivência com a comunidade, reunindo estudantes, professores e famílias em torno da diversidade cultural brasileira.
IETA e o projeto “Revivendo as Tradições Brasileiras”
A valorização do folclore também esteve presente na história do Instituto de Educação do Amapá (IETA), instituição que, durante sua existência, teve importante participação na formação de futuros professores do estado.
Entre as atividades desenvolvidas estava o projeto “Revivendo as Tradições Brasileiras”, realizado durante dois dias no mês de setembro, na quadra poliesportiva da instituição.
Durante as duas noites de programação, os estudantes do curso de Magistério desenvolviam diversas atividades culturais destinadas ao público presente, com o objetivo de apresentar e valorizar a diversidade cultural existente nas diferentes regiões brasileiras.
O projeto reunia venda de comidas típicas e bebidas, espaços expositivos com registros fotográficos relacionados à cultura e aos lugares representados, além de exposição e comercialização de artesanatos.
Embora contemplasse as diferentes regiões do Brasil, o projeto dava atenção especial ao Estado do Amapá, valorizando suas manifestações e características culturais.
Para organizar as apresentações, as turmas eram divididas de acordo com as regiões brasileiras e assumiam a responsabilidade de representá-las por meio de diferentes atividades culturais. Os estudantes apresentavam lendas, danças e outros aspectos do folclore e da cultura de cada região, transformando a quadra da instituição em um grande espaço de celebração da diversidade cultural brasileira.
Mais do que uma atividade escolar, o “Revivendo as Tradições Brasileiras” proporcionava aos futuros professores uma experiência prática de pesquisa, organização e apresentação de conteúdos relacionados à cultura popular.
Quando a tradição deixa de ser transmitida
Infelizmente, nos dias atuais, muitas instituições de ensino deixaram de incluir em seus calendários pedagógicos projetos permanentes voltados ao estudo e à valorização do folclore. As razões são diversas e fazem parte das transformações pelas quais a sociedade e a própria educação vêm passando.
Entretanto, quando os conhecimentos tradicionais deixam de ser compartilhados, existe o risco de ocorrer um enfraquecimento gradual da memória cultural.
Podemos imaginar: com o passar dos anos, a geração mais antiga parte e, se a nova geração não recebe de seus pais, avós, professores e mestres os ensinamentos que foram transmitidos ao longo do tempo, como estarão essas manifestações daqui a algumas décadas?
Como serão as tradicionais rodas de Marabaixo se os jovens deixarem de aprender suas danças, seus cantos, seus toques e suas histórias?
E o que aconteceria com o Carimbó se as novas gerações deixassem de aprender as danças, as composições musicais e os instrumentos que dão ritmo a essa manifestação?
Essas perguntas também podem ser ampliadas para as lendas, os conhecimentos sobre plantas, os saberes medicinais tradicionais, as técnicas artesanais, as receitas, as brincadeiras e tantas outras manifestações que ajudam a manter viva a memória de um povo.
Preservar não significa impedir que a cultura se transforme. Cultura também é movimento. Mas, para que ela continue se transformando, é necessário que exista conhecimento sobre aquilo que veio antes.
O folclore do Amapá
🎧 TRILHA SONORA DO FOLCLORE AMAPAENSE
A cultura também se preserva por meio da música.
Para acompanhar esta matéria especial, convidamos você a conhecer
e ouvir um pouco dos sons que fazem parte da identidade cultural do Amapá.
🎶 Uma experiência sonora para conhecer e valorizar a cultura amapaense.
🎧 TRILHA SONORA DO FOLCLORE AMAPAENSE
A cultura também se preserva por meio da música. Para acompanhar esta matéria especial, convidamos você a conhecer e ouvir um pouco dos sons que fazem parte da identidade cultural do Amapá.
🎶 Uma experiência sonora para conhecer e valorizar a cultura amapaense.
No Amapá, a diversidade cultural também é bastante significativa. Localizado na Amazônia, o estado possui manifestações que refletem a relação histórica de seus povos com os rios, a floresta, a religiosidade, a música, a culinária e as tradições populares.
Nossa cultura reúne elementos indígenas, africanos, europeus e amazônicos, formando manifestações que possuem características próprias e ajudam a construir a identidade cultural amapaense.
Entre tantos exemplos, podemos destacar algumas manifestações e referências que fazem parte desse universo.
A Lenda do Tarumã
Entre as narrativas tradicionais do Amapá está a Lenda do Tarumã, associada ao município de Calçoene.
A história conta que o jovem Ubiraci teria se transformado em tronco depois de morrer afogado no Rio Calçoene enquanto buscava seu amor.
A narrativa faz parte do imaginário popular e demonstra como as lendas ajudam a explicar, por meio da tradição oral, a relação entre as pessoas, a natureza e os lugares onde vivem.
Em 1997, a história ganhou versos na música “Tarumã”, interpretada pelo cantor e compositor amapaense Amadeu Cavalcante, contribuindo para levar essa narrativa a um público ainda maior.
Pedra do Guindaste
Outro símbolo presente no imaginário popular de Macapá é a Pedra do Guindaste, localizada no Rio Amazonas, em frente à cidade.
O local é cercado por histórias e lendas. Uma das narrativas populares afirma que existe uma grande cobra vivendo sob a pedra e que, caso ela desperte, poderá remover o monumento e provocar o desaparecimento da cidade sob as águas.
Sobre a pedra encontra-se uma imagem de São José de Macapá, santo padroeiro da capital amapaense.
Independentemente da interpretação dada à narrativa, a Pedra do Guindaste demonstra como um determinado espaço físico pode adquirir também um significado simbólico e cultural para uma população.
Marabaixo
Entre as manifestações culturais mais importantes do Amapá está o Marabaixo.
Trata-se de uma manifestação tradicional profundamente ligada à história e à identidade cultural amapaense, especialmente à população afrodescendente. Sua tradição está associada à história das comunidades negras que ajudaram a construir o Amapá.
O Marabaixo reúne música, dança, religiosidade, memória, culinária e convivência comunitária. Os ladrões, como são chamadas as cantigas tradicionais do Marabaixo, registram acontecimentos, sentimentos, críticas, histórias e experiências vividas pelas comunidades.
A gengibirra, bebida tradicional feita à base de gengibre, também está presente em diferentes momentos da manifestação.
O Marabaixo, portanto, é muito mais do que uma dança. É memória, resistência, identidade e patrimônio cultural.
Preservar é manter a memória viva
As lendas, músicas, danças, festas, brincadeiras, conhecimentos tradicionais e demais manifestações folclóricas representam muito mais do que costumes antigos.
Elas são parte da memória coletiva de uma sociedade.
Quando uma criança aprende uma cantiga com sua avó, quando um jovem aprende uma dança tradicional com um mestre da cultura, quando uma comunidade mantém uma festa popular ou quando uma escola apresenta aos estudantes uma manifestação cultural de sua própria região, está acontecendo algo muito importante: o conhecimento está sendo transmitido para uma nova geração.
Por isso, é fundamental que o poder público, os órgãos culturais, as instituições de ensino, as famílias e a própria comunidade valorizem e fortaleçam projetos permanentes relacionados à cultura popular.
No ambiente escolar, trabalhar o folclore não precisa acontecer somente durante o mês de agosto. O conhecimento sobre a cultura de um povo pode estar presente durante todo o ano, integrado às diferentes áreas do conhecimento.
História, Geografia, Língua Portuguesa, Artes, Música e outras disciplinas podem encontrar no folclore uma importante ferramenta para aproximar os estudantes de sua própria realidade cultural.
O futuro depende também daquilo que preservamos hoje
O mundo muda. As tecnologias avançam, novos costumes surgem e as sociedades se transformam. Isso faz parte da evolução humana.
Mas uma sociedade que conhece sua própria história possui melhores condições de compreender sua identidade.
Preservar o folclore não significa viver preso ao passado. Significa garantir que as novas gerações conheçam suas raízes para compreender melhor quem são e de onde vieram.
No Amapá, preservar o Marabaixo, as lendas, os saberes tradicionais, a culinária, as músicas, as festas e tantas outras manifestações significa também preservar parte da história daqueles que ajudaram a construir a identidade do nosso estado.
Os antigos projetos desenvolvidos pela Escola José do Patrocínio e pelo IETA mostram que a escola pode ser muito mais do que um espaço de transmissão de conteúdos. Ela também pode ser um lugar de encontro entre gerações, de valorização da cultura e de construção da memória coletiva.
Por isso, quando falamos sobre folclore, não estamos falando apenas de personagens de lendas ou de uma comemoração no calendário escolar.
Estamos falando de memória, identidade, conhecimento e pertencimento.
E se existe uma responsabilidade que precisa ser compartilhada por todos, é justamente esta: não deixar que o conhecimento de um povo desapareça entre uma geração e outra.
Porque, quando uma tradição deixa de ser contada, ensinada e vivenciada, não perdemos apenas uma história.
Perdemos um pedaço da nossa própria identidade.
![]() |
| Forrozão JP 2026: estudantes celebram a cultura popular por meio da dança, da música e da tradição das festas juninas. Foto: Professor Marcondes Oliveira. |
📻 Rádio Escola JP Web
Folclore é cultura. Cultura é memória. E memória precisa ser preservada.
Rádio Escola JP Web — TRANSMITINDO CONHECIMENTO!





Linda matéria!
ResponderExcluir